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Refluxo e gastrite: sintomas, causas e quando ir ao médico

Autoria Redação Estômago Forte Atualizado 26 de agosto de 2026

A gastrite é a inflamação da mucosa do estômago e o refluxo gastroesofágico é a subida do ácido do estômago para o esófago — duas coisas diferentes que partilham sintomas (azia, ardor, mal-estar depois de comer) e muitas vezes acontecem juntas. A causa mais comum de gastrite crónica em Portugal é a infeção por Helicobacter pylori, presente em 73,9% dos adultos de 18-30 anos e em mais de 88% dos adultos com mais de 40 anos. A maioria dos casos melhora com mudanças na alimentação e, quando necessário, medicação receitada pelo médico. Sinais como sangue, dificuldade a engolir ou perda de peso não esperam por uma consulta de rotina.

Nesta edição
  1. O que é a gastrite?
  2. O que é o refluxo gastroesofágico?
  3. Gastrite e refluxo são a mesma coisa?
  4. Quais os sintomas de uma gastrite atacada?
  5. Quais os sintomas do refluxo gastroesofágico?
  6. Porque o refluxo dá tosse, garganta a arder ou muco?
  7. Gastrite nervosa existe mesmo?
  8. Quais as causas da gastrite e do refluxo?
  9. Como se diagnostica?
  10. A gastrite e o refluxo têm cura?
  11. Como se trata a gastrite e o refluxo?
  12. O que comer e evitar na gastrite e no refluxo?
  13. E na gravidez?
  14. Hemorragia digestiva e outros sinais urgentes
  15. Consulta médica nos próximos dias
  16. Esta página não substitui a endoscopia nem o teste ao H. pylori
  17. Porque não indicamos qual comprimido tomar
  18. Fontes utilizadas

73,9%
dos adultos portugueses de 18-30 anos têm H. pylori, a causa mais comum de gastrite crónica

O que é a gastrite?

Gastrite é a inflamação da mucosa que reveste o estômago por dentro. Pode ser aguda (aparece de repente, dura dias, é o que a maioria das pessoas descreve como "gastrite atacada") ou crónica (instala-se ao longo de meses ou anos, muitas vezes sem sintomas óbvios no início).

A causa mais frequente, a nível mundial e em Portugal, é a infeção pela bactéria Helicobacter pylori, que se aloja na mucosa do estômago e provoca inflamação persistente. Portugal tem uma das prevalências de H. pylori mais altas da Europa Ocidental: um estudo com uma coorte do Porto publicado na Acta Médica Portuguesa encontrou infeção em 26% das crianças de 4 anos, a subir para cerca de 66% aos 13 anos, 73,9% entre os 18 e os 30 anos e mais de 88% depois dos 40 — ou seja, a maior parte dos portugueses adquire a bactéria ainda em criança e vai carregando-a ao longo da vida.

Além do H. pylori, a gastrite também aparece por uso frequente de anti-inflamatórios (AINEs, como o ibuprofeno), consumo elevado de álcool, ou, mais raramente, por reação autoimune (gastrite autoimune, em que o próprio sistema imunitário ataca a mucosa do estômago).

88%+
nos adultos com mais de 40 anos

O que é o refluxo gastroesofágico?

O refluxo gastroesofágico é a subida do conteúdo ácido do estômago para o esófago, através do esfíncter esofágico inferior — um músculo em anel que normalmente fecha a passagem entre o esófago e o estômago depois de engolir. Quando esse esfíncter relaxa fora de hora ou perde força, o ácido sobe e irrita a parede do esófago, que (ao contrário do estômago) não tem uma mucosa preparada para o ácido.

Ter refluxo ocasional depois de uma refeição pesada é comum e não é doença. Fala-se em doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) quando os episódios são frequentes (tipicamente mais de duas vezes por semana) ou intensos o suficiente para afetar o dia a dia. Uma meta-análise com dados de 37 países estimou a prevalência de DRGE na Europa em 14,1% — um valor que tem vindo a subir ao longo dos anos, tanto na Europa como na América do Norte.

14,1%
é a prevalência estimada de refluxo gastroesofágico na Europa

Gastrite e refluxo são a mesma coisa?

Não. A gastrite é uma inflamação dentro do estômago; o refluxo é a subida de ácido para fora do estômago, em direção ao esófago. É possível ter as duas ao mesmo tempo — uma gastrite pode reduzir a eficácia da barreira do estômago e favorecer o refluxo, e o próprio refluxo crónico pode inflamar a parte final do esófago (esofagite de refluxo). Por isso os sintomas se confundem tanto na procura por informação: ardor, azia e mal-estar depois de comer aparecem nas duas situações, mas o local do problema é diferente. Quando o que domina é a sensação de estômago pesado e cheio depois de comer, sem ardor a subir, o nome clínico é dispepsia — indigestão e má digestão depois das refeições explica essa diferença.

Quais os sintomas de uma gastrite atacada?

Uma gastrite atacada — o termo popular para uma crise ou agudização da gastrite — costuma manifestar-se com dor ou queimor na parte superior do abdómen (entre o umbigo e o esterno), sensação de estômago cheio mesmo comendo pouco, náuseas, arrotos frequentes e, por vezes, vómitos. A dor tende a piorar com o estômago vazio ou a melhorar temporariamente depois de comer, consoante a pessoa. Nos casos mais intensos pode haver perda de apetite e mal-estar geral.

Estes sintomas costumam durar de alguns dias a duas semanas numa gastrite aguda. Se se repetem ao longo de meses, é mais provável tratar-se de gastrite crónica — que por vezes dá menos sintomas evidentes e só é identificada numa endoscopia feita por outro motivo.

Quais os sintomas do refluxo gastroesofágico?

O sintoma mais característico é a azia: uma sensação de ardor que sobe do estômago em direção ao peito e, por vezes, até à garganta, geralmente depois das refeições ou ao deitar. Outros sintomas frequentes:

  • regurgitação — sensação de líquido ácido ou amargo a subir até à boca
  • sensação de "nó" ou aperto atrás do esterno
  • arrotos frequentes
  • tosse seca, rouquidão ou pigarro persistente, sobretudo de manhã
  • dor no peito que pode ser confundida com dor cardíaca (nesse caso, procurar avaliação médica para excluir causa cardíaca antes de assumir refluxo)

Porque o refluxo dá tosse, garganta a arder ou muco?

Quando o ácido sobe até à garganta e não fica só no esófago, pode irritar a laringe e a faringe — é o chamado refluxo laringofaríngeo. Ao contrário da azia clássica, este tipo de refluxo muitas vezes não dói: dá antes tosse seca persistente (sobretudo ao deitar ou ao acordar), pigarro constante, sensação de muco na garganta, rouquidão ou voz cansada ao fim do dia. É por isso que muita gente com este padrão procura primeiro um otorrinolaringologista antes de perceber que a causa é digestiva.

Gastrite nervosa existe mesmo?

"Gastrite nervosa" é como muitos portugueses descrevem sintomas de gastrite que pioram claramente em períodos de stress ou ansiedade. Não é uma categoria médica separada com mecanismo próprio — a inflamação de base continua a ser a mesma (H. pylori, AINEs ou outra causa) — mas o stress influencia de forma real a motilidade do estômago e a perceção da dor, o que explica por que os sintomas se sentem mais intensos em fases de maior tensão emocional. Tratar apenas a ansiedade sem investigar a causa de base (por exemplo, H. pylori não tratado) tende a deixar o problema por resolver.

Quais as causas da gastrite e do refluxo?

Causa Gastrite Refluxo
Infeção por H. pylori Principal causa de gastrite crónica Não é causa direta
Anti-inflamatórios (AINEs) Irritam diretamente a mucosa Podem agravar sintomas
Álcool e tabaco Irritam a mucosa gástrica Relaxam o esfíncter esofágico
Hérnia do hiato Não aplicável Causa mecânica frequente
Excesso de peso / gravidez Pouco relevante Aumenta pressão abdominal
Stress Agrava sintomas, não é causa isolada Agrava sintomas
Refeições muito grandes ou tarde à noite Pode irritar mucosa já inflamada Facilita subida de ácido

A hérnia do hiato — quando parte do estômago sobe através do diafragma para o tórax — é uma causa mecânica comum de refluxo, porque desloca o esfíncter esofágico inferior e reduz a sua eficácia. Não é visível nem sentida diretamente; costuma ser identificada numa endoscopia pedida por outro motivo.

Como se diagnostica?

Para sintomas típicos e sem sinais de alarme — vómitos com sangue, fezes pretas, dificuldade a engolir que piora —, o médico pode começar por tratamento empírico e teste para H. pylori (respiração, antigénio nas fezes ou análise ao sangue) sem avançar logo para endoscopia. A endoscopia digestiva alta — introdução de uma câmara fina pela boca até ao estômago — é o exame de referência quando há sinais de alarme, sintomas persistentes apesar do tratamento, ou idade acima de 55 anos com sintomas novos: permite ver diretamente a mucosa inflamada, confirmar esofagite e fazer biópsia, se necessário, para excluir causas mais graves.

A gastrite e o refluxo têm cura?

Depende da causa. A gastrite causada por H. pylori tem tratamento com finalidade curativa: eliminar a bactéria com o esquema de antibióticos prescrito pelo médico resolve a inflamação de base na maioria dos casos. Já a gastrite autoimune e certas formas de gastrite atrófica (mucosa que perdeu parte das suas glândulas ao longo de anos de inflamação) não se revertem por completo — controlam-se e acompanham-se, porque a gastrite atrófica prolongada é também um fator de risco a vigiar a longo prazo.

O refluxo raramente tem uma causa que se "cure" de forma definitiva sem mudança de hábitos: controla-se bem na maioria das pessoas com medidas alimentares e, quando preciso, medicação continuada ou por períodos, sob orientação médica.

Como se trata a gastrite e o refluxo?

O tratamento depende da causa, mas partilha uma base comum:

  • Medidas alimentares, descritas na secção seguinte, costumam ser o primeiro passo e, sozinhas, já aliviam sintomas ligeiros a moderados.
  • Erradicação do H. pylori, quando confirmado, com um esquema de antibióticos e um inibidor da bomba de protões, prescrito e ajustado pelo médico consoante resistências locais.
  • Inibidores da bomba de protões (IBP) — a classe de medicamentos mais usada para reduzir a produção de ácido, tanto na gastrite como no refluxo, quando as medidas alimentares não bastam.
  • Antiácidos de balcão para alívio pontual e rápido de um episódio isolado de azia — não substituem investigar a causa se os sintomas se repetem com frequência.

Não indicamos aqui qual comprimido tomar nem durante quanto tempo — a secção seguinte explica porquê.

O que comer e evitar na gastrite e no refluxo?

Não há uma dieta única válida para toda a gente — a tolerância a alimentos varia bastante de pessoa para pessoa — mas há padrões que ajudam a maioria:

Tende a ajudar Tende a agravar
Refeições mais pequenas e frequentes Refeições muito volumosas
Comer devagar, mastigar bem Deitar logo a seguir a comer
Alimentos pouco processados, cozidos, grelhados Fritos e muito gordurosos
Água entre as refeições Café, chá preto e bebidas com cafeína em excesso
Deixar 2-3 horas entre a última refeição e deitar Álcool e tabaco
Elevar a cabeceira da cama (para refluxo noturno) Menta e chocolate (relaxam o esfíncter)

Para o pequeno-almoço, especificamente, evitar sumos muito ácidos (laranja, ananás) e café em jejum tende a fazer diferença em quem tem sintomas logo de manhã — vale a pena testar durante uma a duas semanas e ajustar consoante a resposta.

E na gravidez?

A azia e o refluxo são muito comuns na gravidez, sobretudo a partir do segundo trimestre: o aumento da progesterona relaxa o esfíncter esofágico inferior e o útero em crescimento aumenta a pressão sobre o estômago. As medidas alimentares e posturais descritas acima (refeições mais pequenas, não deitar logo a seguir a comer, elevar a cabeceira) são a primeira linha e costumam ser suficientes. Se não forem, existem antiácidos considerados seguros na gravidez — mas a escolha e a dose devem ser sempre confirmadas com o médico ou obstetra que acompanha a gravidez, nunca por conta própria.

Hemorragia digestiva e outros sinais urgentes

  • vómitos com sangue vivo ou com aspeto de "borra de café"
  • fezes muito escuras, pretas e pegajosas, com cheiro muito forte (melena — sangue já digerido, sinal de hemorragia na parte alta do tubo digestivo)
  • dificuldade a engolir que piora rapidamente, sobretudo se já não passam nem líquidos
  • dor abdominal súbita e muito intensa

Consulta médica nos próximos dias

  • perda de peso não pretendida — como referência, 5% do peso habitual em 6 a 12 meses já é considerado significativo
  • dificuldade a engolir que se instala aos poucos e vai piorando
  • vómitos persistentes
  • cansaço ou palidez sem explicação (pode ser anemia por perda de sangue não visível nas fezes)
  • sintomas novos e persistentes com mais de 55 anos, ou sintomas que não melhoram apesar de tratamento com inibidor da bomba de protões

Ter um destes sinais não significa cancro: em pessoas com menos de 60 anos, mesmo com um sinal de alarme presente, o risco individual de doença grave continua a ser inferior a 1%. Significa que vale a pena investigar em vez de tratar em casa indefinidamente — é essa a diferença entre "ir ao médico por precaução" e "entrar em pânico".

Esta página não substitui a endoscopia nem o teste ao H. pylori

Aqui explicamos o que são a gastrite e o refluxo, porque acontecem e o que ajuda na maioria dos casos, com base em estudos e guidelines clínicas. Não substitui uma consulta: só o médico, muitas vezes com apoio de endoscopia ou teste ao H. pylori, confirma o diagnóstico exato e decide o tratamento certo para o seu caso.

Porque não indicamos qual comprimido tomar

Não recomendamos aqui um inibidor da bomba de protões, um antiácido específico ou uma dose. Sem saber a causa exata dos sintomas de cada pessoa — H. pylori, hérnia do hiato, uso de anti-inflamatórios, ou outra — indicar um medicamento ou dose seria irresponsável, e é exatamente esse atalho que muitos vendedores de "soluções naturais para a gastrite" usam para vender sem avaliação nenhuma. Essa decisão é do médico, depois de perceber a causa.

Perguntas frequentes

  1. A gastrite atacada tem cura?

    Uma crise de gastrite aguda costuma resolver-se em dias a duas semanas, sobretudo com ajustes na alimentação. Se a causa for infeção por H. pylori, o tratamento com antibióticos prescrito pelo médico costuma resolver também a inflamação de base.

  2. Gastrite crónica tem cura?

    Se for causada por H. pylori, sim — eliminar a bactéria resolve a inflamação na maioria dos casos. A gastrite autoimune e a gastrite atrófica avançada não revertem por completo, mas controlam-se e acompanham-se.

  3. Refluxo gastroesofágico tem cura?

    Raramente tem uma causa que desapareça de vez, mas controla-se bem na maioria das pessoas com mudanças de hábitos e, quando necessário, medicação sob orientação médica.

  4. Gastrite e refluxo são a mesma doença?

    Não. A gastrite é inflamação dentro do estômago; o refluxo é a subida de ácido para o esófago. Podem acontecer ao mesmo tempo e partilham sintomas como a azia, mas o problema está em locais diferentes.

  5. O que é bom para aliviar a azia rapidamente?

    Um antiácido de balcão alivia um episódio pontual. Se a azia é frequente (mais de duas vezes por semana), vale a pena falar com o médico em vez de recorrer ao antiácido como solução permanente.

  6. O refluxo pode dar tosse ou dor de garganta?

    Sim — chama-se refluxo laringofaríngeo, e muitas vezes não dói: dá tosse seca persistente, pigarro ou rouquidão, sobretudo de manhã ou ao deitar.

  7. Posso tomar antiácido durante a gravidez?

    Existem opções consideradas seguras na gravidez, mas a escolha deve ser sempre confirmada com o médico ou obstetra que acompanha a gravidez, não por conta própria.