Vale separar o uso tradicional da evidência científica sólida, porque nem
sempre coincidem.
Funcho (Foeniculum vulgare) é o carminativo tradicional mais
documentado para gases — o efeito é atribuído aos óleos essenciais (anetol,
fenchona), que relaxam a musculatura lisa do intestino. O corpo de evidência
mais forte está na cólica infantil (revisão Cochrane, qualidade
baixa-a-moderada, sem recomendação formal apesar de resultados sugestivos);
em adultos, a evidência clínica direta é ainda mais escassa. É por isso
que o funcho aparece em tantas receitas de chá caseiro — uso tradicional
plausível, sem ensaios clínicos robustos em adultos que o confirmem.
Papaína, enzima extraída da papaia verde, tem capacidade demonstrada em
laboratório de degradar proteínas — por isso é usada industrialmente como
amaciante de carne.
A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA)
avaliou-a apenas quanto à segurança como enzima de processamento alimentar,
não como suplemento com alegação de saúde digestiva aprovada. Dizer que a
papaína "tem aprovação da EFSA para a digestão" seria uma distorção do que
essa avaliação cobre — é uma distinção regulatória pouco conhecida e que
convém saber antes de comprar um suplemento por esse argumento.
Sementes de abóbora têm evidência real de atividade anti-parasitária em
modelos animais, mas a investigação clínica em humanos continua muito
limitada, e o contexto estudado (ténias) não é o dos parasitas mais comuns
em Portugal. Não há evidência de qualidade que sustente sementes de abóbora
como tratamento para gases em si — o mecanismo estudado é outro.
Para comparação: a fibra é uma das poucas categorias com uma alegação de
saúde sobre trânsito intestinal formalmente aprovada na União Europeia
("aumenta o volume das fezes", aplicada a fibras específicas como a de
beterraba sacarina). A maioria dos extratos vegetais vendidos para gases e
digestão, incluindo os três acima, não tem o mesmo nível de aprovação
regulatória — o que não invalida o uso tradicional, mas situa o que é
"plausível" e o que é "comprovado ao nível exigido pela EFSA".
Seria mais simples dizer "tome X gotas de chá de funcho três vezes ao dia".
Não o fazemos porque a evidência clínica em adultos para
estas ervas e enzimas é escassa — recomendar uma dose fechada daria uma
certeza que os estudos não sustentam. Preferimos mostrar o que se sabe e o
que ainda não se sabe, para que a decisão de experimentar (ou não) seja
informada, não uma promessa vendida como certeza.